Que difereça faz entre envergar o distintivo “Sou Fiscal do Sarney” e desfraldar bandeiras “cívicas” e “republicanas” estampando a palavra de ordem “Fora Sarney!”?
Há muito mais em comum entre gente e outra do que seríamos capazes de admitir.
Há de tudo um pouco: ingenuidade, cretinice, pouco senso do ridículo, cafonice, acne, mau hálito, caspa, seborréia, chulé…
Nunca deixe de concluir uma tarefa que você concordou desempenhar, do contrário,
(entre parênteses, não sei quanto a você, mas me deu uma fadiga enorme só de ler a palavra “tarefa” que eu mesmo escrevi - não sem algum esforço - logo acima).
Você gosta de tarefas? Passse aqui em casa e não faltará várias e diferentres delas (todas dignas, é claro). Não hesitarei em transferir quase todas à sua responsabilidade (outra palavra que mal consigo escrever).
O mundo é essencialmente cafona. Basta ouvir o uso e abuso que o Caetano Veloso faz do vibrato e ver o quanto há gente que acha a fonte Brush Script elegante.
Nelson Rodrigues - sempre esse homem fatal - disse e repetiu (”flor de obsessão”) tantas vezes:
- Ninguém mais terno, mais amoroso que o ex-desafeto.
É bem verdade. Sempre soube disso. Todos nós o sabemos, desde a infância.
Inimigos reconciliados são capazes de gestos de amor pouco prováveis. Exagerados. Quem estivesse passando por perto poderia confundir, levianamente, com pura viadagem.
Jamais hesitaria em fazer as pazes com não importa quem.
Ainda que para, logo em seguida, despachá-lo ao inferno.
Pessoas, confesso estar preocupado (meu cunhado escreve “preoculpado”, e com que virtuosismo!) com o paradeiro do nosso desterrado vivo (ainda?) mais ilustre.
Por que diabos o filho da Elsie e Orígenes não atualiza, há tempos, a sua coluna no site da BBC Brasil?
Ivan Lessa morreu? Sou muito desinformado sobre necrológios e outras notícias da vida real. Por exemplo, só ontem soube que o Augusto Boal já não está entre vocês que gostavam do teatro do cara.
Ivan, sinto falta de suas crônicas (quadro agudo, patológico, mais conhecido por banzo), apesar (ou por isso mesmo) do tom amargo.
Deve ser triste o exílio, compulsório ou voluntário, quando não se esquece de onde veio.
O mais trágico é que um retorno ao lar poderia ser pior. O que lhe aguardaria?
Morra em Londres, Ivan, se é que você continua vivo.
Exceto com o apoio de um agente da vigilância sanitária:
Depois do disclaimer, quem poderia me acusar de fazer apologia das drogas?
Sério, isso deve matar. De qualquer modo, achei curioso.
Lembro-me de que, antigamente, a Internet era mais divertida. Achava-se, facilmente, fórmulas very user friendly (ao contrário dos ingredientes das receitas acima - exceto aquele troço que você compra pros gatos cagarem e mijarem -, quase todos ininteligíveis pra mim, supremo ignorante que sou) para a produção de bombas caseiras com efeitos nada desprezíveis.
Nunca fiz nada disso, tampouco com propósitos malévolos, mas sempre tive muita curiosidade, eu que ganhei, quando criança, um daqueles kits de química (mentira), só pra saber se daria certo (verdade). E também se, depois das instruções iniciais, eu poderia, com talento próprio, fabricar armas letais ou de destruição em massa, desde que poupando a família, os meus amigos, as pessoas inteligentes, as mulheres belíssimas (e também as inteligentes, que sabem ser bonitas como ninguém), enfim, restaria muito pouco, mas o melhor dos mundos, depois da aniquilação.
O que diz a legislação brasileira sobre o cidadão que tem a sua própria produção doméstica e para consumo próprio? Esta não é uma interrogação retórica.
Você acha justo o Estado (o estado não se dá ao respeito, então por que insistimos em escrever com e maísculo?) invadir a sua casa por conta de um pé de maconha que você tem num vaso na varanda apenas para carburar uns becks no recôndito do lar?
Você acha que “recôndito do lar” deveria ser uma frase proibida de ser dita em público?
O que você não faria em público, por pudor?
Você acha que o(a) seu(sua) marido(mulher) é uma droga perigosa que exige grave intervenção do Estado?
Convidei uma moça para um “Dejeuner sur l’Herbe“, inspirado como estava pelas coisas do Edouard Manet, que não era um Monet, mas também nenhum mané.
Tinha tudo em mente: lugar aprazível; levaria pequenos deleites dignos do paladar mais exigente.
A temperatura prometia ser amena. Bem convidativa a um piquenique - algo tão inusual.
O que poderia dar errado?
À moça, tão linda quanto burra (tarde demais pude saber), sequer me ocorreu oferecer da própria grama, viçosa e tenra nesta estação, acompanhada de um tinto inenarrável.
Achei que seria boa idéia vir aqui e registrar: Sexta-feira, 22 de maio de 2009, 05:03: Nada (essa palavra também esteve no diário do último Romanoff no poder, às vésperas da turba com archotes). Eu, pelo menos, estou a salvo da luta de classes, tanto quanto eu saiba. Acabo de fazer uma busca desesperada por amigos. Mesmo os que já não vejo há séculos. Mesmo os que sequer com licença poética poderiam ser assim chamados. Estavam todos dormindo - creio eu. Não os culpo por isso. Eu mesmo deveria fazer o mesmo.
Não sem motivo - como se não bastasse a ausência de talento - decidi por abandonar as minhas insanas pretensões literárias.
Se algum dia julguei que poderia vir a ser um escritor, deixei de lado vaidades tão efêmeras e de conseqüencias tão funestas, no mínimo constrangedoras.
Não é que o Reinaldo Azevedo, mais associado às funções excretoras do que à suposta contribuição ao jornalismo, usa como epígrafe em seu blog um trecho de “In My Craft or Sullen Art“, de Dylan Thomas, poema traduzido para o português pelo bom Mário Faustino.
Ambos mortos, não poderiam manifestar repúdio. Nem lhes resta revirar na tumba, pois isso não é próprio dos cadáveres. Muito menos o Faustino, vítima de acidente aéreo, que não teve a sorte de um funeral.
Nem cartas à namorada voltarei a escrever. Sabe-se lá que uso podem fazer disso.
Tenho notado palavras (por vezes, pequenas frases) soando em ruídos cotidianos, cada vez mais freqüentes (sim, não abrirei mão do trema).
Ontem, mijando, ouvi o final do jato de urina soar como se alguém dissesse “for a miracle”. E com inconfundível acento londrino.
No dia anterior, empilhando alguns pratos que acabara de lavar, fui desajeitado e um deles quase se espatifou ao som do que me pareceu a palavra “espectro”, nítida, pronunciada com ênfase maligna, sílaba por sílaba. Como se o demônio a escandisse.
Premonições ou alucinações, pouco importa, sinto que posso fazer bom uso desse novo dom. Há quem leia a sorte em borra de café e búzios; existem quiromantes, cartomantes e um sem número de gente versada em técnicas divinatórias as mais diversas e extravagantes. Ler a sorte nos sons do meu próprio jato de urina, portanto, não seria tão absurdo assim. Consulentes voyeurs não hesitariam em me acompanhar ao mictório. Claro que os recatados e afoitos seriam encorajados a permanecer no divã, de onde poderiam ouvir a micção, embora inintelígivel à distância.
Não há dúvida: tudo o que nos cerca pode falar-nos. Algumas coisas preferem manter-se em silêncio, seja por prudência, timidez, avareza, inépcia com as palavras ou simplesmente mau humor. Portanto, minha cara, ainda não perdi a esperança de ouvir em seus grunhidos e outros sons desagradáveis: “- Querido, eu te amo”, embora isso em nada venha a augurar quanto à sua sorte que eu já não saiba. Salta aos olhos e apavora.
Revendo a tetralogia (É isso mesmo? Não? Contem comigo… De qualquer modo, é o bastante - concordam?) do gourmand Dr. Lecter, o que mais permanece me intrigando é que o arguto psicopata não notou que a sua querida Clarice Starling sofreu uma mudança drástica de fisionomia desde “The silence of the lambs”, talvez menos radical à que o próprio inflingira a Mason Verger (Gary Oldman, pela primeira vez, irreconhecível).
Ou ele é tão esperto que preferiu fingir não notar que uma reles farsante se fez passar pela caipirona (eu comeria!) do FBI?
O que é bem provável: Lecter foi um titereiro despudorado com a risível Julianne Moore.
Tenho aqui uma edição da tradução pelo José Lino Grünewald para Os Cantos do Ezra Pound.
Tem música e vigor desde o início.
Vejam, por exemplo, parte de o Canto I:
E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifiício de Circe,
A deusa benecomata.
Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.
Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.
(blá, blá, blá)
Esse “Sol indo ao sono”, mesmo sem “sombras sobre o oceano”, é muito bom! “Cana do leme sacudida em vento” não fica atrás.
Não é a tôa que José Lino Grünewald (belo nome de almirante posto a pique) foi um dos irmãos fundamentais (era isso mesmo?) de um dos nossos maiores gênios da raça, Nelson Rodrigues.
David Foster Wallace foi encontrado morto. This was his real masterpiece, indeed. E não teve de usar mais 1.000 páginas. A floresta agradece. Aconteceu aos 12 de Setembro, véspera do aniversário do meu filho caçula, o Theo. A festa transcorreu como deveria. Os convivas voltaram à casa bem satisfeitos. Não é assim que é a vida?
Meu Deus, tenho trabalhado tanto, que só agora me dei conta de que nada vi das Olimpíadas de Pequim. É uma pena, gostaria de ter acompanhado as provas de hipismo, sempre tão excitantes.
A propósito, será que a Aracy Balabanian refugou, a exemplo daquele vexame nos Jogos de Sydney/2000?